Amor inter-racial e a solidão das mulheres negras…

Publicado por Griot Brazil em

          Toda vez que tentamos falar sobre esse assunto o circo pega fogo. Não sei porque existe tanto ressentimento e rancor envolvido em torno deste tema, será que é sentimento de culpa? Não sei, mas isso, não chega ser o fim do mundo.  Todavia, nem precisamos ter um consenso sobre esses e outros assuntos igualmente importantes, tendo em vista que raramente o consenso é algo que nasce do desejo da coletividade ou seja na maioria das vezes é apenas uma conquista política e nada mais. Falar de amores e sentimento é sempre uma aposta, pois há tantas variáveis, tantas possibilidades que podemos incutir no erro de sermos superficiais. O primeiro ponto que quero deixar claro é o fato de que eu não acredito que duas pessoas de grupos raciais diferentes não possam se apaixonarem e serem felizes juntos.Amor-interracial           Claro que podem. Todavia, no Brasil 70% dos brancos casam entre si. Isso é um fato. Acredito ainda que em países onde não exista esse desejo de extermínio étnico essa possibilidade deve ser bem maior.  Agora o Brasil é um caso à parte, primeiro por ser uma nação que é fundada sob a égide da intolerância, ignorância e racismo. E como se não bastasse ainda temos uma elite extremamente inculta, violenta e superficial.  Elite essa que ainda hoje nos idos do século XXI quando o avanços tecnológicos e científicos nos dão novos horizontes, apontando inclusive para o fato de que a raça humana tal qual a conhecemos hoje, nasceu na África e de lá saiu para povoar o resto do mundo. Mesmo assim eles continuam buscando um ideal de nação branco escandinavo baseando-se numa teoria de superioridade racial já desacredita em boa parte do planeta.Rafaela Felicciano/Metrópoles

                  Tal fato nem chega ser surpreendente, afinal de contas somos a última nação do mundo a abolir a escravidão. E sendo assim, somos também a última a sair do século XIX, para o século XX.  Ainda nessa linha de raciocínio podemos dizer que seremos a última nação do mundo a chegar ao século XXI e assim por diante.  Muito se tem falado em racismo negro o que também acaba sendo natural se analisarmos o caráter superficial e cientificamente achista com que se tem debatido temas que deveriam ser sérios, mas que acabam sendo diluídos num mar de achismos e sofismo de toda ordem. Talvez! Por nossa debilidade educacional. Talvez! Pelo caráter pouco ético que historicamente as relações raciais brasileiras tem demonstrado.  E, é nesse panorama que devemos discutir o movimento negro e suas lideranças majoritariamente casados com pessoas brancas.casal2             Para tanto acredito que devemos primeiro entender que ser uma liderança dentro de um movimento é uma escolha pessoal e que ninguém é forçado a ser líder. Pensado assim, podemos fazer uma comparação com outros movimentos, o MST por exemplo. Imaginem um líder dos Sem Terras sendo um fazendeiro riquíssimo. É extremamente contraditório se pensarmos em termos de ética e bom senso.  É uma comparação grosseira, mas faz sentido se entendermos que a maior liderança negra que se construiu no Brasil não escolheu uma mulher negra para partilhar sua vida. A mensagem que qualquer estrangeiro desavisado pode ter é a seguinte: Não há mulheres negras dignas de tal figura histórica no Brasil. O ponto importante é que a mensagem deixada a juventude é a de que ao ascender socialmente tanto o homem negro culto, quanto o inculto deve procurar casar-se com mulheres brancas para melhor ser aceito na sociedade. O mesmo serve para as mulheres negras de corpos esculturais e acadêmicas.  Oras se existe uma intenção deliberada por parte das elites de eliminar a pele negra através de sucessivos cruzamentos programados, como ignorar tal fato e se entregar aos nossos instintos mais íntimos, se de fato é como nos sugere o livro Alma no exílio, sem pelo menos fazer uma apurada reflexão a respeito das nossas motivações?    A pergunta que não quer calar é a seguinte: Até onde essas posturas são voluntárias e involuntárias?  Para simplificar podemos formular assim, até que ponto somos plenamente livres em nossas escolhas?

                                                                                          Carta de William Lynch

               “Não se esqueçam que vocês devem colocar o velho negro contra o jovem negro. E o jovem negro contra o velho negro. Vocês devem jogar o negro de pele escura contra o de pele clara. E o de pele clara contra o de pele escura. O homem negro contra a mulher negra.” Carta de William Lynch – A verdade é que urge a necessidade de novas referências que tenham em mente que o exemplo é mais forte do que qualquer palavra bonita ou conceito bem embasado.  Não quero dizer com isso que toda luta que foi lutada até agora perdeu o seu valor por que as lideranças negras não se deram o trabalho de serem coerentes com os seus discursos. Todavia sabemos o preço que a juventude negra vem pagando por toda essa incoerência.

Por: Preto Júnior

Continua…

 


4 comentários

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Jairo Ricardo Silva Rosa · 19/12/2018 às 10:19 pm

Este tema deve ser muito, mas muito mais divulgado e discutido. Mesmo sendo espinhoso e desagradável a muitos, todos concordando ou não deveriam conhecer esta teoria para refletir sobre ela.
Tenho 49 anos e embora me reconheça no perfil, no “grupo de amostragem”, sou casado com uma negra linda, mas isso não importa. Bem, o que eu quero dizer é que não conhecia, até a pouco, e nunca considerei o assunto à luz detalhes teoria. Em fim, temos que falar muito mais e abertamente sobre isso.
Abraço

    Griot Brazil

    Griot Brazil · 19/12/2018 às 11:52 pm

    Sim Jair concordamos com vc tanto que pretendemos fazer uma série exclusiva sobre esse tema. abraços amigo

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Heloisa Maria Brito Correia de Brito · 21/12/2018 às 12:10 am

Muito coerente e pertinente sua publicação, realmente faz-se necessário discutir mais esse tema abordado, o sofrimento e exclusão da mulher e da jovem negra que levam à solidão, é uma realidade gritante em nosso país. A escolha pela mulher de pele mais clara ou branca tem sido o horizonte da maioria dos jovens e adolescentes..Essa discussão deve perpassar por toda a sociedade.

    Griot Brazil

    Griot Brazil · 21/12/2018 às 10:05 am

    Somos gratos por sua interação. Continue nos seguindo e se vc puder indicar o nosso projeto ficaremos felizes…

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