Bolsonaro não reflete o amor de Cristo…

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Por: Humberto Salustriano da Silva

 

“Bem aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” Mateus 5:9

Durante uma boa parte da minha vida, eu cresci e amadureci dentro da igreja. Foi lá que pela primeira vez, aprendi o que era senso de coletividade. Foi lá também que eu aprendi o que significava o sentimento de afeto. E foi lá, sobretudo, que eu aprendi na prática, o que significava saber amar ao próximo. Todas as semanas eram essas as mensagens que eu absolvia nos ensinamentos da Escola Bíblica Dominical. As histórias de amor à humanidade por parte de Deus e os exemplos de Cristo em suas atitudes acolhedoras àquelas pessoas que eram as mais desprezadas da sociedade. Foram estes, portanto, os aprendizados que fizeram parte da formação do meu caráter e da minha consciência cristã: a prática do amor e o exercício da misericórdia.

Certamente, por tudo isso, eu tenha andado tão angustiado e triste com a postura de grande parte da Igreja diante do cenário político atual. Tem sido duro assistir cotidianamente, líderes religiosos e pastores dos mais diversos segmentos evangélicos proferir tanto rancor, ódio e frieza nas suas palavras. Um verdadeiro show de intolerância, falta de empatia e animosidades de todos os tipos que encontrou numa única figura política, a materialização de toda a perversidade humana. O que explicaria esse assombroso apoio dos cristãos a um candidato a Presidência da República que notadamente tem na sua trajetória parlamentar um profundo desprezo aos direitos humanos? Cujo a história está marcada pelo discurso da violência; pela defesa do autoritarismo; e por manifestações insuportáveis de desrespeito às diferenças?  Obviamente, os motivos são variados e complexos e eu não tenho condições de definir exatamente o que poderia explicar todo esse panorama. No entanto, com base no que aprendi sobre o cristianismo e, principalmente, sobre tudo aquilo que aceitei adotar como parâmetro de uma vida cristã, posso afirmar com triste certeza que Bolsonaro NÃO reflete o amor de Cristo.

Não reflete o amor de Cristo, meus amigos, porque Jesus jamais defenderia a tortura dos seus semelhantes por qualquer que fosse o motivo, como defende o presidenciável em questão. O próprio Deus que se fez homem em Cristo Jesus morreu torturado pelas leis do Império Romano. Não é coerente a um cristão defender que o Estado aplique o seu monopólio da força para ferir a dignidade humana através da prática da tortura. Não importa se é bandido. Não importa o que ele fez. Não importa sequer se ele fez algo contra você. A tortura é o assassinato da alma e não é razoável para aqueles que se declaram seguidores de Cristo, relativizar e minimizar a sua prática. Portanto, não faz sentido algum para um cristão naturalizar o choque elétrico em cima de um corpo molhado; colocar um ser humano pendurado numa madeira e espancá-lo com requintes de crueldade; estuprar mulheres e introduzir ratos em suas vaginas; colocar sacos plásticos na cabeça de uma pessoa e sufoca-la até quase a morte. Ações profundamente desumanas que foram praticadas na ditadura militar brasileira por figuras nefastas como o Coronel Brilhante Ustra, mas que ainda assim foi exaltado como herói por Jair Bolsonaro, em pleno Congresso Nacional.

Não reflete o amor de Cristo, porque Jesus jamais defenderia a pena de morte ou adotaria como referencial de conduta humana, a ideologia propagada pelo candidato do “bandido bom é bandido morto”. Jesus é aquele que praticou a misericórdia. É aquele que mesmo em meio a uma sociedade profundamente hierarquizada como era aquela de sua época, não se omitiu em fazer justiça e garantir a preservação da vida acima de qualquer lei adotada pelos homens. O caso da “mulher adúltera” relatado nas escrituras sagradas mostra muito bem o caráter de Cristo sobre todas essas questões. Aquela mulher, certamente morreria apedrejada por todas aquelas pessoas que estavam ávidas em cumprir a legislação religiosa que regia o pensamento daquela gente. Mas corajosamente Jesus se colocou a sua frente. Impediu uma execução sumária, e ainda instigou aquele povo a refletir sobre os seus próprios pecados e sobre a hipocrisia de pretenderem julgar o próximo sem olhar para os seus próprios defeitos. (João: 8:1-11).

Bolsonaro – que se arroga como o candidato de Deus – não reflete o amor de Cristo porque ele jamais incitaria a violência entre as pessoas. O Jesus que eu aprendi a crer é o “príncipe da paz” (Isaías: 9:6); é aquele que nos ensina a amar o próximo (Lucas: 10:27) e mesmo quando se trata daqueles que nos odeiam, maldizem e caluniam, Jesus nos orienta a abençoá-los e orar por suas vidas. (Lucas: 6: 27-31). Como é possível ao seguidor de Cristo, assumir como algo correto o armamento da população com a justificativa de se combater o crime? Quando Jesus vivenciou um dos seus momentos mais difíceis antes da crucificação, seu fiel discípulo Pedro sacou sua espada para tentar impedir a prisão de seu mestre e golpeou a orelha de uma das pessoas que iriam conduzi-lo. Imediatamente, o filho de Deus repreendeu os seus seguidores, e ainda impediu que usassem de violência para defendê-lo, alertando-os que todos aqueles que lançavam mão da espada, por ela mesma acabariam perecendo. (Mateus: 26: 47-56).

Não se trata aqui, meus amigos, de apelar para que sejamos de “Esquerda” ou de “Direita” dentro do atual cenário de disputa política. Esses conceitos ideológicos são muito posteriores à própria história da Igreja Cristã. O que se pretende na verdade com essa reflexão é que todos nós possamos atentar para o sentido mais profundo do que significa ser um seguidor e imitador de Cristo, dentro de uma sociedade perversa e totalmente centrada nos seus próprios interesses individuais. Não podemos perder de vista a nossa capacidade de sentir a dor do outro, de manifestar empatia pelo próximo e de entender que o cristianismo tem que ser, acima de tudo a prática constante do amor.

Nessa perspectiva, Bolsonaro jamais poderia refletir o amor de Cristo, através das suas ações e palavras, pois sua conduta faz transparecer apenas os sentimentos de raiva e de vingança. Existe uma arrogância implícita na sua fala em exaltar os cristãos como sendo o suprassumo da moralidade, dos valores da família e do modelo de santidade. Mas esquecem os que compram este discurso que na ótica dos princípios cristãos, todo o ser o humano só subsiste neste mundo pela infinita misericórdia divina. Não somos melhores do que ninguém nesta terra. “Todos pecamos e estamos destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23) e, por esse motivo, não faz qualquer sentido nos colocarmos acima de quem quer que seja.

É estranho assistir a tantos líderes religiosos incitando o seu rebanho a fiscalizar a moral alheia, tentando impor à sociedade a visão de mundo do cristianismo. Julgam, acusam e até perseguem os que não se enquadram nos seus modelos de conduta e se esquecem completamente de que Jesus em nenhum momento apontou o dedo acusatório para qualquer pessoa. Ao contrário, Jesus em toda a sua caminhada sempre confrontou os “doutores” da lei farisaica, tão zelosos em fazer o povo andar disciplinado nos termos da legislação religiosa, mas por dentro, mostrando-se pessoas vazias e podres como “sepulcros caiados”. (Mateus: 23).

Espero sinceramente que a Igreja que se diz de Cristo reflita sobre os rumos que tem decidido trilhar. Atente para o seu papel de “sal e luz” na vida das pessoas e não se conforme com os padrões do mundo das injustiças e perversidades, mas o transforme pela renovação do entendimento de Deus (Romanos 12:2). Que a Igreja entenda, por fim, o seu papel primordial expresso na sua história lá no início, quando o sentido da sua existência se materializou no amor ao próximo, na comunhão e no partir do pão entre todos aqueles que espalharam a mensagem de paz e salvação do Cristo Jesus. (Atos: 42-46).

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