Condutas discriminatórias precisam de diagnóstico compatível com o crime, defende psiquiatra…

Publicado por Griot Brazil em

Telmo Kiguel: “se o discriminador faz mal ao outro, porque a ciência não pode pensar numa prevenção a esse modo de conduta?”.

Por Marco Weissheimer

No dia 8 de setembro, o Comitê Contra a Intolerância e a Discriminação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), promoveu um debate sobre os efeitos da discriminação na área da saúde. Participaram do debate Raquel Silveira, do Instituto de Psicologia da UFRGS, e Telmo Kiguel, médico psiquiatra e coordenador do Projeto Discriminação da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Esse projeto tem como objetivo básico a apropriação do estudo pela Psiquiatria da Conduta Discriminatória, cuja origem é basicamente psicológica e produz sofrimento mental e/ou físico no discriminado podendo chegar, em casos extremos, ao suicídio.TK1.jpgEm entrevista ao Sul21, Telmo Kiguel fala sobre esse projeto e defende a necessidade de uma maior mobilização dos profissionais da saúde mental no debate sobre esse tema. Hoje, na sociedade, assinala o psiquiatra, há somente duas instâncias que auxiliam a inibir as condutas discriminatórias: a ação organizada dos grupos discriminados e de seus apoiadores e o Direito que já tipifica como criminosa determinadas condutas como o racismo. No entanto, ressalta, o psiquismo presente em todo o processo discriminatório ainda requer um estudo mais aprofundado visando a busca de um diagnóstico compatível com a tipificação de um crime dada pelo Direito.

Sul21: Como nasceu o seu interesse por esse tema do papel da ciência na prevenção de condutas discriminatórias?

Telmo Kiguel: Eu sou psiquiatra e trabalho com psicoterapia de orientação psicanalítica. Tenho interesse neste tema desde o final da década de 60 quando me especializei em Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Naquela época, ainda vigia uma definição do doente mental como alguém que fazia mal para outras pessoas ou mal para si mesmo. Quando se descobriu o papel dos vírus e bactérias no surgimento de certas doenças, a ciência se preocupou em desenvolver procedimentos para detectar e neutralizar a ação desses microrganismos por meio de vacinas, abrindo a partir daí a possibilidade da prevenção. Isso mudou profundamente o mundo. Quando eu me formei, a especialidade mais procurada era a pediatria. Com o desenvolvimento das vacinas, ela foi se tornando uma das menos procuradas, pois os problemas de saúde das crianças diminuíram muito.

Pensando neste cenário, uma coisa sempre me intrigou: se o discriminador faz mal ao outro, porque a ciência não pode pensar numa prevenção a essa conduta? Há cerca de dez anos, consegui instalar na Associação Brasileira de Psiquiatria esse projeto sobre discriminação. A ideia é que, se não se definir e não se diagnosticar a conduta do discriminador, especialmente do racista, do machista e do homofóbico, continuaremos sem um trabalho de prevenção nessa área. Quando se isolou o vírus da gripe e se desenvolveu uma vacina para a doença, isso provocou uma grande mudança do ponto de vista da prevenção. Nunca mais tive uma gripe depois que passei a tomar uma vacina. Faz mais de dez anos que eu não tenho essa doença.

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