Duas mulheres, amigas, fizeram Topless. Uma preta, uma branca. Qual foi o desfecho?

Publicado por Griot Brazil em

Por: Renato Gama…
Duas mulheres, amigas, fizeram Topless. Uma preta, uma branca. Qual foi o desfecho? ‪#‎WeSupportThema‬

Bom dia. Ontem foi o dia da Mulher Afrikana, mas deixei pra hoje esse post por ser um dia de semana. Gostaria de aproveitar o Dia da Mulher Afrikana para incluir uma denúncia/campanha que tá rolando em Trinidad & Tobago.
O Racismo no esporte não é novidade pra ninguém. Michael Phelps tem uma anomalia, e bateu todos os recordes e nunca foi impedido de competir por ter uma doença chamada de Síndrome de Marfan, onde seus membros crescem de maneira absurda, fazendo toda diferença num esporte como a natação.
Ao mesmo tempo, todo mundo aqui conhece o caso Dutee Chand? Fiz uns posts sobre o caso dela há algum tempo, e essa irmã indiana tava sendo impedida de vir competir nas olimpíadas do RJ, simplesmente por produzir mais testosterona que o normal pra uma mulher. Atualmente, não sei a quantas anda o caso dela.rentato gama post1

Esse foi só um exemplo. Temos centenas de milhares. Mas o caso agora não diz respeito a doenças, anomalias, síndromes ou transtornos. Mas sim a um comportamento, cujo desfecho foi extremante sintomático e histórico. Sei que tenho que tomar bastante cuidado, pra não parecer moralista, culpabilizar a vítima, machista e afins. Mas diante até dos últimos acontecimentos virtuais, já tá dado que sempre terá um grupo que distorcerá e fará interpretações alheias ao que tento criticar através das publicações. Mas vamos ao caso:
Duas amigas ginastas da delegação de Trinidad & Tobago, postaram foto de topless. A Preta, que se chama Thema Williams, sempre teve resultados superiores aos de sua amiga branca, onde Thema se classificou 18 (dezoito!!!) posições ACIMA da sua amiga branca. No resumo da ópera, Thema está sendo punida, proibida de competir. “Ué, mas a outra também não postou foto de topless como ela?” Mas é branca. “Ué, mas ela não ficou dezoito posições atrás da preta, e a preta que vai ser punida?” Mas é branca. “Mas caramba, o País não deveria colocar em primeiro lugar a maior chance de conseguir uma medalha nos jogos, que inclusive seria histórica?” Mas a ginasta é preta. Raça em primeiro lugar. Vemos isso todos os dias, só não enxerga quem não quer. Quem fez o gol de Portugal há algumas semanas e quem foi estampado em todos os jornais como herói do título?
Os brancos colocam Raça à frente de tudo. E nos ensinam que os interesses maiores são sempre materiais e econômicos. Ora, que lucro maior pela menor despesa, risco e trabalho possível, que enviar o próprio povo branco pobre pra ser escravizado no Brasil, ao invés de se arriscar e ter prejuízos financeiros absurdos atravessando o oceano pra escravizar uma outra Raça? Sinal que materialidade e capital não era o principal interesse. Quer contradição maior que vc exterminar a população negra de Uruguai e Argentina, que hoje em dia seriam grandes consumidores nesse sistema Capitalista? Sinal que materialidade e capital não são lá a prioridade dos brancos. Quer loucura maior que vc ser pastor de uma igreja universal, e fazer campanha pró-legalização do aborto? Sinal que maior que o medo de ir pro inferno (segundo seus dogmas e crenças), é o sonho de ver uma Raça “pura”, uma Raça branca. Higienizada!
O que pode ser mais importante que preencher todas as vagas do Doutorado? Antes deixar as vagas abertas, que aprovar pessoas negras para as mesmas!
Antes contratar um branco burro que um preto qualificado pra uma vaga de emprego!
Raça…Raça. Raça! Raça!!!
A Supremacia branca esfrega na nossa cara todos os dias como Raça vem em primeiro lugar pra eles. Quem disse que interessa o fato de Thema Williams ser superior à branca, tendo ficado dezoito posições acima da mesma? A chance de medalha não interessa a Trinidad & Tobago. Porque ela é preta!

Parte 2
Isso nos convida a uma outra reflexão também, que é inclusive uma das teclas que vira e volta eu bato. Tanto pra homem preto quanto pra mulher preta: O que é revolucionário pra uma pessoa branca, NÃO NECESSARIAMENTE (MUITO DIFICILMENTE) SERÁ PRA UMA PESSOA PRETA!
A gente só pode recusar um predicado (exemplo: Bela, recatada e do lar), quando a gente é considerado esse predicado! Quando a gente age, achando que tá subvertendo, recusando um predicado, mas nosso estereótipo é justamente aquele, a gente acaba, sem querer, afirmando, reafirmando aquele estereótipo.
O irmão que posta foto todo fim de semana com um copo de cerveja/vodca/Whisky, jamais será visto como o branco que faça o mesmo. Ou até mesmo como o branco da rave, que posta foto com os olhos virados! O branco vai ser considerado V1d4 L0k4. E você será considerado mais um cachaceiro de merda! O seu estereótipo criado a partir da colonização é um. O do branco, é outro. Quem vai ser segunda-feira discriminado/advertido/demovido/demitido do trabalho não é o branco. É você, preto!
Quando o branco deixa de usar roupas engomadinhas na faculdade e passa a usar roupas de mendigo, ele tá subvertendo o próprio estereótipo, e inclusive esfregando na nossa cara que ele, branco, pode ESCOLHER vestir-se como mendigo sem ser tratado socialmente como tal. Mas se vc seguir essa onda de ir pra faculdade aos trapos, você estará reforçando um estereótipo. Reforçando um predicado. Lembre: “Pra gente recusar um predicado, é preciso que primeiramente a gente seja ele. Seja visto como tal.”
O caso do topless das duas ginastas preta e branca mostra evidentemente isso. AINDA BEM que a Thema é melhor ginasta que a branca, porque isso deixa mais gritante o que tô pondo aqui. Qual é o estereótipo da mulher preta que é vendido pra Europa? Qual é o estereótipo da mulher branca que reside no senso comum?
Thema tem 0% de culpa de ter sido punida. A discussão sobre o corpo da mulher negra e o corpo da mulher branca são discussões complexas e profundas, sobre as quais não vou me debruçar aqui, e que me basta dizer o seguinte: São caminhos totalmente opostos. O que é revolucionário pra uma, é reforço de estereótipo da outra. E vice-versa.
Que sigamos acompanhando e nos manifestando, apoiando Thema Williams, ginasta que pra Trinidad & Tobago pouco importa o desempenho dela e a qualidade dela enquanto ginasta. O que importa é que se criou um pretexto para tirar uma preta e colocar uma branca na vitrine-propaganda de Trinidad & Tobago, onde Thema certamente precisará de um suporte Psicológico enorme, pois possivelmente passará a se sentir culpada por algo que não tem culpa.
Viemos de sociedades onde homens pretos e mulheres pretas nunca tiveram problema em usar poucas roupas. Viemos, ao mesmo tempo, de sociedades onde em certos espaços homens pretos e mulheres pretas usavam adornos mais rebuscados. Descendemos de um povo que nunca ficou secando homens negros de tanguinha/sem camisa. Nem ficava agarrando, secando, estuprando mulheres pretas com seios de fora. Somos de um Povo que ao mesmo tempo que se apresentava com pouca roupa, é o criador das indumentárias mais lindas que este Mundo já viu, com as mais variadas roupas-cobertas e tecidos. Nunca foi problema pro Povo Afrikano usar tanto pouca roupa quanto muita roupa. Portanto se tem uma coisa que não busco com esse post é moralizar o corpo da mulher negra, nem projetar que o ideal para ela seja atingir como as mulheres brancas se vestiam até o século XX. Pelo contrário, estou aqui justamente defendendo de que tipos de povos descendemos. E, se um dia quisermos restaurar essa naturalidade com que nossos corpos sempre foram tratados antes da invasão branca; se queremos, de verdade, que a mulher negra volte a poder usar a roupa ou não-roupa que quiser e ser respeitada por isso, precisamos deslocar nosso olhar ideológico e epistemológico, descentralizando-no da Europa e suas teorias, e centralizá-lo em África, a qual corresponde ao berço de onde descendem justamente as mulheres que sempre foram respeitadas pela sua maneira de ser/existir no Mundo. Uma vez que a Europa NUNCA tratou com respeito e naturalidade corpos femininos, quiçá descobertos, chega ser piada acreditar que são as teorias de lá que resolverão os problemas de qualquer pessoa negra.
Como podemos acreditar que o respeito ao corpo e liberdade do corpo da mulher (preta) virá sob teorias da Europa, se a mesma configura um berço onde tal respeito nunca existiu?
Se hoje o corpo do homem negro, da mulher negra, da criança negra é hiperssexualizado, isso se deve a um olhar muito bem localizado: O Olhar Eurocentrado sobre nossos corpos. Portanto, por aquilo que hoje as mulheres brancas lutam, alguns homens brancos lutam, nada mais são que conquistas de algos que nunca tiveram enquanto povo branco, e que nós, Povo Preto, sempre tivemos e respeitamos em nosso ceio. Ceio. Seios.
Hotep.

 


0 comentário

Deixe aqui o seu comentário

%d blogueiros gostam disto: