Lendas Suburbanas

Publicado por Griot Brazil em

Menina de morro

Magra, esguia e desconfiada metida numa saia simples estilo godê que se encaixa perfeitamente em suas curvas delicadas. Beleza rústica da cor do ébano que atravessa as ruazinhas de terra a passos largos. Quase sempre acompanhada de si mesma.

 É do trabalho pra casa e de casa pro trabalho, nunca está de bobeira. Sai de manhã cedinho e volta quase à noitinha. Depois de um abraço amoroso no filho, fruto de um relacionamento com um rapaz do asfalto na adolescência volta ao seu mundo ermo.   Nascida e criada numa comunidade pobre da zona norte do Rio de Janeiro, onde raramente as meninas não engravidam precocemente. Cismou em não fugir a regra. É quase como uma identidade ou marca registrada. É como se buscassem afirmar a feminilidade ou fecundidade dando à luz. Vivendo num mundo onde quase nada é seu, ter um filho é como um troféu conquistado a duras penas. O preço é alto. São noites e mais noites de sono perdidas, festas, baladas e paqueras numa fase da vida em que isso é tudo o que importa. Ela, assim como muitas meninas da comunidade, carrega no colo o fruto das várias campanhas de branqueamento promovido pelos meios de comunicação com suas infindáveis novelas de gosto duvidoso e caráter dominador que nada mais são do que uma tentativa desesperada de reafirmar a já combalida hegemonia branca diante da mediocridade de negros e negras iludidos com esse mundinho de faz de conta. O cara meteu o pé não assumiu, mas ela tirou de letra. Fazer o quê, né? Ela é negra.

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            Ontem a flagrei distraída no ponto de Moto Taxi, com uma calça Jeans justa que enfatizava as curvas do seu corpo, camisa do flamengo, seu time de coração. Nada combinava, mas não tinha que combinar e, é assim que é… Mantinha aquele jeito irresistível de menina travessa que não se preocupa muito com a aparência, mas, que ainda assim, é extremamente sensual. Como pode? Mulheres e mais mulheres buscando a perfeição física nas academias ou em centros estéticos de ultima geração e uma negrinha que mal tem tempo para cuidar de si mesmo desfilar o seu corpo de odalisca pelas ruas empoeiradas de uma favela.

 Gostaria de vê-la de black, trança nagô, dreadlock ou com algum visual mais despojado, desses da moda. Mas a sua timidez não deixa. O cabelo alisado e penteado de maneira a deixar uma franja, os olhos puxados como de uma índia e a pele marcada pelas travessuras da infância quando pulava amarelinha, jogava queimada, subia e descia de árvores, batia, apanhava, chorava, gritava e sorria.

            Olhando assim para o passado posso até vê-la inquieta subindo e descendo as escadarias do morro apressada num eterno ir e vir para lugar nenhum. Gabriela ou simplesmente Gaby é assim que gosta de ser chamada pelos amigos.  A verdade é que essa beleza nada ortodoxa pode até nunca figurar entre os fetiches masculinos, mas tem todo um glamour que a multidão cega pelos ícones cuidadosamente fabricados pelas indústrias de cosméticos, entretenimento e afins não consegue enxergar. Visitei o perfil dela num site de relacionamentos dia desses. Flagras de momentos de intimidade com a família, as brincadeiras, a casa simples, o jeito único de ser me deram a exata medida de como a vida moderna nos grandes centros urbanos tem estreitado os nossos horizontes. O banho de mangueira, o riso despreocupado, as crianças brincando as brincadeiras da minha infância.  Até parece que o tempo parou lá no alto do morro.

*Tirado do livro: Um pouco além das rimas: O preto e a cidade


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