Lendas Suburbanas

Publicado por Griot Brazil em

Gigolô

 Outro dia, outra manhã com cara de feriado. A nega foi trabalhar bem cedinho, mas ele só vai acordar depois das onze e meia. Às vezes acorda mais tarde, mas raramente acorda mais cedo. A planta no quintal é o relógio, todos os dias quando ele acorda a flor já está aberta. O nome da planta é onze horas. Ela sempre abre sua flor neste horário. Ele se levanta espreguiçando e abrindo a boca. Sonolento vai até a porta da sua casa e dá uma espiada na vizinha que está pondo a roupa no varal que se derrete toda ao vê-lo sem camisa e com os músculos à mostra. Ela espia o seu corpo de cima abaixo e se arrepia da cabeça aos pés. “Que homem é esse” ? pensa ela consigo mesma. E o cara orgulhoso do seu porte físico e do fato de despertar os olhares cobiçosos das mulheres alheias deixa escapar um sorriso cínico.  O subúrbio quente dos dias longos de verão pede sexo. Os corpos em evidência, o calor, a pele soada logo ao alvorecer estimulam a imaginação. Ele olha novamente para a mulher com um short minúsculo e por alguns segundos a mente viaja. Vira-se, vai até a cozinha ainda desarrumada, faz um cafezinho para si mesmo. Pega um cigarro no maço estrategicamente posto na cabeceira da cama e com uma inscrição bastante sugestiva “FUMAR FAZ MAL `         À SAÚDE”. Lê, mas não reflete a respeito do assunto. Pega o inseparável violão que se encontra atrás da porta, vai até o quintal da sua casa e procura uma sombra acolhedora. Senta-se e começa a tocar uma canção. A melodia deliciosa se espalha pela vizinhança despertando olhares curiosos. Compor, cantar e amar é só o que ele sabe fazer e fazer bem feito. Por vezes sonha com uma oportunidade no show business, mas enquanto o sonho não se concretiza ele segue cantando de bar em bar nas noites cariocas. É um homem frustrado por ter nascido no país errado. Por saber que tem talento, mas que o mercado branco de música negra no seu país é restritivo e cruel. Por vezes assistiu estarrecido na TV propagandas contra a suposta intenção do governo de censurar os meios de comunicação. Logo lhe vem à mente o quanto a TV brasileira é preconceituosa. O quanto censura artistas que têm preocupação social e vínculo com a sua comunidade. O quanto censuram o funk, o rap e tudo mais que vem do gueto. Lembrou-se dos velhos e bons tempos da capoeira e do samba e do quanto ambos foram reprimidos. Pensou com seus miolos que enquanto o samba estava em “nossas mãos” era música de bandido e maloqueiro. Agora que “eles” tomaram conta é música chique.gigolo

 _“Censurar não é só proibir. Fingir que não existe não dar espaço nas programações também é uma forma de censura. E isso é só o que “eles” têm feito com a polução negra desde tempos remotos.” _ fala ele gesticulando para si mesmo, como se estivesse falando com seu melhor amigo.

Ao perceber seu devaneio, disfarça e volta a tocar. A sua vida tem sido na madrugada. E ele sabe que a vida noturna tem suas armadilhas, mas também exerce um fascínio incrível sobre seus atores. Rua da Lapa, Joaquim Silva, Men de Sá, Lavradio e tantas outras do centro da cidade são o seu habitat. Quantas e quantas vezes não às atravessou cambaleantemente com um cigarro na boca e um copo descartável até a metade com cerveja quente. Quantas vezes ele não caminhou por elas acompanhado de uma prostituta de meia idade drogada, insatisfeita com a vida e os bares todos fechados.

Enquanto ele dedilhava em sua viola uma música do Roberto Carlos, seu cantor favorito, não pelo fato de ser rei disso ou daquilo, mas porque pra ele o sentimento é o que importa, e isso o Roberto tem de sobra, mentalmente ele passa o olhar em revista à plateia do dia anterior. Uma mulher na primeira fila vestida de maneira atraente vestido vermelho, sandália de salto alto combinando, maquiagem com tons fortes, olhar sensual em companhia de algumas amigas não tirava os olhos de cima dele.afroLembrou-se do cartão de visita que recebeu ao término da apresentação e que esqueceu no paletó. Que sorte que a sua preta não o revistou antes de ir ao trabalho como sempre fazia. Mas também depois daquela transa deliciosa feita às pressas minutos antes dela sair para o emprego, nem tinha como se lembrar de nada.

Aquela mulher era a sua joia rara, o seu tesouro e bem maior. Quando o bicho pegava e as contas apertavam, era ela quem o socorria. Nas noites de insônia e bebedeira, era ela quem o carregava. No mundo de hoje, onde as mulheres estão se tornando cada vez mais independentes e cada vez mais se assemelhando aos homens sob vários aspectos, ela ainda nutria um quê de Amélia com seu instinto maternal à flor da pele. Mulher bonita, inteligente e financeiramente independente… No fundo, ela era muita areia pro seu caminhão, mas, enquanto ela não soubesse disso, tudo estaria bem.

*Tirado do livro: Um pouco além das rimas: O preto e a cidade


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