Lutar por sobrevivência também é um ato revolucionário…

Publicado por Griot Brazil em

Escrever, rimar ou versar sobre mulheres negras para mim vai ser sempre um prazer enorme. Afinal, eu sou fruto da luta de uma mulher negra que criou seus filhos sozinha trabalhando como boia-fria. Levantava quatro horas da madrugada, todos os dias para ir buscar o nosso sustento. Logo, as mulheres da nossa família são mulheres fortes, determinadas e trabalhadoras e nós nos orgulhamos disso. Eu estou falando da minha família, mas poderia muito bem estar versando sobre qualquer família preta periférica que na maioria das vezes acabam seguindo estes mesmo itinerários, até por falta de oportunidade. Quando eu me lembro da luta da minha mãe para criar a gente, acabo me lembrando também que o dia 25 Julho ( dia internacional das mulheres negras latina americana e caribenha) é um breve mais valoroso dia para lembrarmos que temos correndo em nossas veias o sangue de rainhas, guerreiras e lideres espirituais que sacrificaram suas próprias vidas para que pudêssemos estar aqui hoje lutando para fazer a diferença.

No geral, não vemos como ato revolucionário as lutas cotidianas de pessoas que são equivocadamente chamadas de cidadãos comuns. Talvez, este ethos que insistimos em atribuir aqueles que são glorificado pela história, escrita mornamente, por homens ou mulheres comprometidos com o ethos de uma sociedade excludente e racista. Talvez, isso seja um equivoco. Pensando por essa lógica branca, a dona Maria Lucia, minha mãe, jamais poderia ser colocada no rol das revolucionárias que em algum momento se rebelaram contra esse sistema corrosivo.  Um bom exemplo disso, é essa senhora (foto) que se joga na frente dos policias para proteger seu filho. Ela não é considerada revolucionária pelos ditos pensadores modernos.  Para eles, lutar para sobreviver não é um ato revolucionário. No entanto, eu vejo com outros olhos esta questão. Ato revolucionário para mim, é uma mulher negra num pais racista, criar seus filhos sem deixar brecha para que esse sistema imoral e corrupto os corrompa, mate e/ou os transforme num imbecil completo.

Liberdade

Cedula Haiti 10 dix gourdes em homenagem a Sanité Bélair a Tigresa da Revolução

Claro que também temos aquelas grandes revolucionárias que chegaram a pegar em armas para defender um sonho de liberdade que talvez, nunca chegasse a usufruir. Suzanne Sanité Bélair que lutou ombro a ombro com grandes homens em sua época é um exemplo disso. Ela é descrita como a Tigresa da Revolução, era uma afranchi (pessoa preta livre) que participou ativamente na luta contra a escravidão, ela serviu ao exército de Toussaint L’Ouverture (revolucionário negro que teve a sua trajetória e a de seus companheiros de luta narrada por C.L.R James em “Os Jacobinos Negros”), como sargento e devido a suas habilidades e conquistas tornou-se uma tenente liderando a maioria das batalhas em sua cidade natal, L’Artibonite e responsável pelo levante de quase toda a população escravizada, contra seus senhores de escravos.. Ganhou ainda mais destaque ao participar do confronto com o exército de Napoleão. Infelizmente Bélair é capturada pelos franceses e em 5 de outubro de 1802 é condenada à morte por decapitação e mesmo diante a morte ela manteve sua bravura e se recusou a por a venda e em seu ultimo ato – “Ela gritou para o seu povo “Viv Libète anba esklavaj!” – (“Liberdade, não para a escravidão!”)” [3] (Fonte: excelente artigo de Tatiane Ribeiro / Alma Preta).

A verdade é que todas essas mulheres negras que travam suas lutas solitárias ou não, são revolucionarias legitimas e assim devem ser encaradas. 

Por: Prettu Júnior


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