O embranquecimento do carnaval…

Publicado por Griot Brazil em

De uns tempos para cá, o carnaval a antiga festa do povo vem sofrendo uma metamorfose que ao que tudo indica não vai parar por aqui. A primeira mudança grave a meu ver é a inaceitável aceleração do samba enredo que hoje deve estar beirando os 130 BPM (Batidas por minutos) o que dificulta extremamente o entendimento de letra e melodia, mas claro em tempos de espetáculo, isso é irrelevante, já que os integrantes das agremiações daqui pra frente não precisarão mais saber sambar, vão apenas reproduzir os passos ensaiados incessantemente ao longo do ano, coreografias e mais coreografias relegando o samba e arte do carnaval a meros apetrechos. Os antigos foliões majoritariamente pretos nascidos e criados nas comunidades onde estas escolas estão inseridas, a maioria sambista de pai e mãe inevitavelmente vão perder espaço para a classe média branca e sem vinculo com essas comunidades. O talento nato para o samba e a paixão desmedida pela escola do coração a muito deixou de ser requisito essencial para sair na avenida ou para ser passista, rainha de bateria ou qualquer coisa que tenha o mínimo de destaque. Esta história é antiga, mas a negada não aprende nem com os erros dos outros e nem com os próprios erros. Preocupados apenas em tirar a barriga da miséria sambista antológicos legitimam os ilegítimos sem se preocupar com o futuro do que eles próprios ajudaram a criar e pior, sem preocupar com as novas gerações, sendo assim seguimos a largos passos rumo ao inevitável coadjuvantismo.No atual mundo globalizado a cultura do velho preto meio beberrão, meio folgado às vezes até desleixado não tem mais espaço e aquela jinga de malandro do morro tão típica dos grandes mestres perdeu completamente o sentido numa sociedade que busca a todo custo o enbranquecimento de todas as suas manifestações culturais. Assim como na sociedade Argentina onde os brancos negam a origem do Tango cujo próprio nome denuncia sua origem étnica. Aqui num futuro próximo negaremos a origem do Samba assim como já se tenta negar a origem de ritmos tipicamente pretos como o Rap, o Reggae e o Rock. É evidente que existe um propósito maior que apenas expulsar os pretos e pobres sem dentes iludidos com essa falsa democracia racial dos grandes desfiles, já que este processo em curso há tanto tempo esta quase que concluído. Permito-me na minha ignorância típica de cidadão sem curso superior analisar por outro prisma.

No Brasil e eu diria em particular no Rio de Janeiro existe a mentalidade ou talvez a aspiração subconsciente ou até mesmo consciente de que o preto não pode e nem deve ter porra nenhuma. Esta mentalidade esta por traz das manifestações dos jovens de classe média contra as cotas, afinal se os pretos começarem a entrar na universidade quem ira limpar o chão deles? Na disso me surpreende já que esta é uma sociedade ainda muito primitiva em termos raciais vide a conclusão que a ex-secretaria de estado norte americana Condoleezza Rice, que esteve no Brasil visitando a Bahia  e o Rio de Janeiro em 2008 e que relata em seu livro, No High honour: A memoir of many years  Washington (Nenhuma Honra maior: Memórias de meus anos em Washington):

“Durante a visita eu me surpreendi com a divisão racial no Brasil. Os brasileiros sempre sustentaram que não têm problema racial. Pareceu-me que nos serviços braçais ficam os africanos (com a pele escura); nos serviços, os mulatos (birraciais); e os funcionários do governo têm ascendência europeia/portuguesa. O Brasil foi o país mais parecido com os Estados Unidos na sua composição étnica, mas parece ter tirado pouco proveito da revolução pelos direitos civis que mudou a face da política e da sociedade americanas.”

Na minha modesta opinião esta analise caiu como uma luva para exprimir o que é o carnaval hoje. Os profissionais do carnaval, carnavalescos, coreógrafos, bailarinas, os jurados, apresentadores etc, todos muito bem remunerados são brancos ao passo que as costureiras, os carpinteiros, pedreiros e toda gama de profissionais mal remunerados são pretos independentemente de tom de pele. Em resumo os pretos criaram o samba e as escolas de samba e foram perseguidos, espancados e muitas vezes foram mortos por isso, e agora quando deveriam usufruir do fruto do seu trabalho a velha mentalidade escravocrata se apresenta e rouba na mão grande a arte da favela.

 Por: Prettu Junior


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