Um dia de sonho – Contos de Carnaval

Publicado por Griot Brazil em

O momento estava chegando. O coração apertado batia cada vez mais forte. Em pé e ao lado de outras centenas de anônimas, igualmente ansiosas, ela espera olhando para a arquibancada agitada.  Ao longe tenta avistar seus parentes, amigos, filhos, netos e uma gama de pessoas da comunidade que foram torcer e apoiar, apesar de só terem conseguido ingressos para o setor treze, já no fim da passarela. Os fogos anunciam que a hora está chegando, a perna afrouxa, mas ela segura a onda inspirando e soltando todo o ar acumulado nos pulmões. Levanta os olhos e vê sua filha e discípula de cabeça baixa, parecendo estar fazendo uma oração. O cavaquinho chora e ela sente um arrepio correndo pelo corpo, aquele friozinho na barriga ainda existia mesmo depois de tantos carnavais. O instante seguinte é marcado pela entrada do repique que acelera ainda mais as batidas do coração. Aquela era a deixa. A escola estava pronta pra entrar na avenida. O puxador chama no microfone:

_ Alô comunidade! Chegou a hora, hein!

E o surdo, o bumbo, a caixa, o tamborim, o Agogô e a cuíca vêm logo em seguida chamando o povo pra sambar. Aquele era o momento pelo qual passara o ano inteiro esperando e aquela altura a mente já nem comandava mais o corpo que parecia mover-se sozinho guiado única e exclusivamente pela emoção, ritmo e paixão.

 Uma a uma as alas iam se preparando para entrar na avenida e representar a escola com raça, sangue, suor e lágrimas. Os carros alegóricos colossais repletos de celebridades vinham abrindo espaço no meio daquele mar de gente. Atores, modelos, putas, artistas, atletas, homossexuais todos se exibindo para as câmeras de televisão em busca de mais um segundinho de fama. Nos camarotes Vips, soberba, luxo, ostentação, bandidos com sotaque italiano, francês, inglês e americano, policiais, traficantes influentes, homens de negócio, políticos, contraventores, prostitutas de luxo, mafiosos, socialites, atrizes, playboys. Fama e dinheiro contrastando com a origem humilde da maior parte dos integrantes das agremiações.Alheia a tudo isso, aquela senhora de sessenta anos, sendo quarenta e cinco deles dedicados ao samba, mostra a que veio. Vestida de baiana ela roda, dá uma volta e roda de novo com a maestria de quem sabe o que está fazendo. Ela dá seu show particular na avenida. Não é fotografada, não é filmada, não é vista não é lembrada nem reverenciada, mas mesmo assim ela não perde a majestade nem a consciência de que esta dando a sua contribuição. Com o samba da escola do coração na ponta da língua, ela canta com o entusiasmo de uma adolescente, àquela hora, já com pés descalços, pisando o chão duro, da Marquês de Sapucaí, como quem pisa num tapete vermelho.

Os repórteres e os fotógrafos com suas lentes viciadas que só enxergam os seus iguais aparecem clicando desesperadamente as mesmas figuras de sempre. Até parece algo combinado, mas não, são os valores plantados e regados dia a dia por 500 longos anos que permanecem intocados no inconsciente de cada um deles e de uma boa parcela da população brasileira que guia seus aparatos tecnológicos de última geração rumo à mediocridade.

Apesar da tentativa desesperada de expor a população pobre, majoritariamente negra, ao ridículo de ser mero coadjuvante na sua própria festa, todos os anos pessoas como a D. Dinha indiferentes ao glamour e aos milhares de dólares investidos anualmente no carnaval, mostram que esta luta que não vem de agora ainda terá muitos rounds.

 Depois de atravessar toda a Sapucaí sambando e cantando o corpo esguio e ainda forte, D. Dinha começa a dar sinais de cansaço.  Ela, ainda tomada de emoção por ter visto a sua escola fazer um desfile impecável, muito embora saiba que não irá nem desfilar no sábado, no desfile das campeãs, pois conhece bem as escolas que são as preferidas dos jurados apesar disso, ela se sente satisfeita, pura e simplesmente por ter participado do melhor desfile já realizado por sua escola de samba.

Um a um os foliões iam se dispersando. Uns com a fantasia nos ombros rumo ao ponto de ônibus que saiam para a Baixada Fluminense, Zona Norte, Zona Oeste, Niterói, São Gonçalo, Campo Grande, Bangu, Queimados, Austin, Santa Cruz e periferias da cidade, outros empurravam carros alegóricos ou o que sobrou deles de volta a concentração.

            O sol já estava raiando quando D. Dinha chega ao pé do Morro, com os pés cheio de bolhas e sangrando, assim começa a jornada até o alto, a subida é íngreme e a idade já não ajuda mais. O cenário é épico, como aqueles imortalizados nas poesias de Cartola, Bezerra da Silva, Chico Buarque e tantos outros. Embora o corpo reclame passo a passo ela começa a subida enquanto os primeiros raios de sol tocam a sua face já repleta de suor. Um olhar para o horizonte seguido de um pensamento encorajador lhe dá ânimo. Ainda falta um bom pedaço para caminhar e ela o faz até chegar ao fim e entrar em seu barraco ainda bagunçado, como deixara ao sair para o desfile. Ao se jogar na cama como quem se joga num rio de águas cristalinas o corpo desfalece quase que imediatamente. Para ela terminava ali mais um carnaval, mais um dia de sonho.

Tirado do Livro: Um pouco além das rimas: o preto e a cidade

Autor: Preto Júnior


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