Vaidade versus consciência…

Publicado por Griot Brazil em

Eu me lembro bem quando fiz meu primeiro nagô, la pelos idos dos anos 2000. Naquela época ter nagô, black, dread era pra poucos e a grande maioria dos pretos que ousavam assumir a sua negritude também no contexto estético era por pura ideologia. Havia um desejo latente de gritar ao mundo o quanto nos orgulhávamos de pertencer a esse povo maravilhoso e alegre que mesmo depois de tantos revezes conseguem sorrir e tentar ser feliz. Então, quando saiamos para rua com aquele visual exuberante, todos os olhares se dirigiam a nós, uns com decepção ( não sei do que, mas havia uma certa repulsa em alguns olhares), outros com mera curiosidade. Os sentimentos que despertávamos eram os mais variados possíveis, havia medo, inveja, desprezo e até orgulho, mas eramos os senhores da nossa identidade e não aceitávamos ser medidos pela régua desse sistema racista.

Aliado ao estilo black, afro ou seja la como vocês preferem falar, havia também a cultura da busca por conhecimento que se dava pela relação com o hip hop, naquele tempo ser um b. boy, um dj, um mc ou rapper não era apenas saber rimar ou fazer um freestyle. Era essencial também ter conhecimento sobre a cultura afro-diasporica, precisava-se ter postura e atitude. Claro que muitos extrapolavam estes conceitos e se perdiam em si mesmos, mas para além dos erros pessoais ou coletivos o legado cultural foi repassado e transmitido para essa nova geração que hoje incorpora todos esses signos de independência. É bonito ver as minas com seus blacks soltos ao vento, us manos com suas tranças e estilos mil, não tem como não se orgulhar e se lembrar que fomos uma sementinha que vingou. A unica coisa que não me orgulha é ver que muitos estão nisso por puro estilo e que quando abrem a boca não conseguem articular duas frases que fazem sentido. Isso, pode e deve ser só uma fase, mas não podemos deixar de perceber que cada preto com estilo black alternativo que não tem conhecimento de si e da luta do seu povo é um tapa na cara de todos aqueles que lutaram e dedicaram suas vidas na construção de uma identidade negra positiva.  Temos que saber que cada preto sem consciência é um ponto a favor daqueles que historicamente tem trabalhado para que o nosso povo nunca se reerga.

Higor Farias em um artigo muito bem embasado nos fala o seguinte: Ser negro no Brasil é uma questão que perpassa o tom de pele, o cabelo crespo e os traços (sic) não finos (sic). É uma questão política e de resistência. Fazer parte desse grupo é trazer consigo um processo histórico de escravidão e de um racismo estruturado que resultou em uma população estigmatizada, marginalizada e subjugada. Entender isso — e mais que isso — faz parte da luta diária contra o racismo velado e o explícito.

Sim, nós travamos lutas memoráveis, lutamos guerras perdias e sonhamos projetos irrealizáveis, mas nunca perdemos o desejo de viver numa sociedade mais justa e igualitária.  Por isso, é tão urgente a ruptura com certos modelos de militância que desmerece o preto pobre que esta lutando para sobreviver e não consegue por “Ns” razões construir um discurso bem embasado, ou mesmo uma critica coerente sobre as mazelas dessa sociedade. Bom! Pode até parecer obvio para alguns, mas essa é uma questão que precisa ser refletida, pensada e repensada a exaustão, afinal, me parece que a identidade negra tem sido adulterada para contemplar alguns nichos populacionais. Isto é um tremendo equivoco e só fara com que continuemos reféns deste sistema desigual e injusto.

Eu sei que os jovens que hoje aderem a esses estilos blacks, não viveram e provavelmente não sabem as lutas que foram travamos para que hoje eles pudessem escolher o melhor visual para as sua cabeleira e se orgulharem disso. Tudo isso, é parte essencial da “cultura negra”, mas não pode e nem deve ser apenas por vaidade ou modinha. Porque não pode? Não pode simplesmente pelo fato de que a luta contra o racismo precisa de negros e negras conscientes e orgulhosos  de si e do seu povo. Afinal, qual o sentido de se fazer todo um processo de desbraquicefalização para pura e simplesmente cair nos braços dos filhos(as) ou netos(as) dos senhores de engenho que enriqueceram com o trabalho servil dos nossos antepassados. O que tem de revolucionário nisso????

Por: Prettu Júnior


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